AS CONTRIBUIÇÕES DE HEIDEGGER PARA A COMPREENSÃO DAS RELAÇÕES DE CUIDADO EM
UMA ENFERMARIA PEDIÁTRICA
Maira Prieto Bento Dourado*
Esta pesquisa tem o objetivo compreender as relações de cuidado da criança
hospitalizada dentro do cotidiano hospitalar. Ao mesmo tempo pretende
compreender como os cuidadores, entendem a noção de ‘cuidar’ e ‘cuidado’, e
como estes vivenciam esta prática. A pesquisa é de natureza qualitativa,
tendo sido realizadas entrevistas semi-estruturadas com cuidadores. O método
utilizado é o fenomenológico. A discussão
teórica sobre a noção de ‘cuidado’ e ‘cuidar’ baseia-se na contribuição dos
filósofos Heidegger, no saber médico e na legislação brasileira. Assim acredito que a importância desse trabalho
consiste na clareza e na sensibilidade que o assunto foi abordado, contribuindo
então para melhorar a compreensão das relações de cuidado na enfermaria
pediátrica e para a compreensão do sentido que ‘cuidado’ e ‘cuidar’ tem para os
cuidadores.
Palavras-chave:
cuidado, Heidegger, criança, enfermaria pediátrica.
Temática: Psicologia
hospitalar
*Psicóloga;
Pós-graduada em psicologia clinica fenomenológico Existêncial – IFEN;
Pós-graduada em psicoterapia infantil - IGT.
AS CONTRIBUIÇÕES DE HEIDEGGER PARA A COMPREENSÃO DAS RELAÇÕES DE CUIDADO EM
UMA ENFERMARIA PEDIÁTRICA
Maira Prieto Bento Dourado*
O presente trabalho o objetivo compreender as relações de cuidado
da criança hospitalizada dentro do cotidiano hospitalar, na enfermaria
pediátrica do Hospital Universitário Gaffrée Guinle (HUGG), e ao mesmo tempo,
pretende compreender como os cuidadores, entendem a noção de cuidar e cuidado,
e como estes vivenciam esta prática. Neste trabalho utilizo o termo cuidadores
como sinônimo de equipe médica: médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem,
acadêmicos, nutricionista, assistente social, psicólogos, enfermeiros do riso e
equipe de limpeza.
A pesquisa de natureza
qualitativa, foi realizada a partir observações durante o período de atuação da
autora na enfermaria de pediatria do referido hospital, entre os meses
fevereiro de 2006 e janeiro de 2007, e realizadas entrevistas semi-estruturadas
com cuidadores. O método utilizado é o
fenomenológico, o qual busca investigar o fenômeno em si, assim como ele
acontece na experiência, de forma a descrevê-lo, analisá-lo e interpretá-lo
hermeneuticamente.
A
discussão teórica sobre a noção de cuidado e cuidar baseia-se na contribuição
dos filósofos Heidegger, no
saber médico e na legislação brasileira. No primeiro ponto dessa discussão
Heidegger, considera o cuidado(sorge) como o próprio modo de ser do
homem no mundo, a autora concorda com este pensamento e busca trazer para a
concretude as reflexões ontológicas de Heidegger; no segundo ponto o
cuidado está diretamente ligado à prática das suas profissões de saúde, cuidar
do paciente, tratá-lo e curá-lo; por fim o terceiro ponto demonstra como o
Brasil concretizou as relações de ‘cuidado’ com as crianças hospitalizadas em
direitos e deveres.
No
filosofia alguns autores consideram que o cuidado(sorge) é ontológico, precede o ser e é inerente a ele, ou seja o
homem é cuidado(Boff, 1999)(Heidegger, 2005)(Boss, 1988). Na área médica o
cuidado está diretamente ligado à prática das suas profissões, cuidar do
paciente, tratá-lo e curá-lo, que apesar da visão cartesiana, está se voltando
para um olhar mais humanizado do serviço. No que tange a legislação, o Brasil
concretizou tardiamente as relações de cuidado com as crianças, e a atenção
para aquelas que estavam hospitalizadas.
Martin
Heidegger, na sua filosofia defende a busca às
coisas mesmas, e descarta os conceitos sedimentados históricamente, bem
como desenvolve uma crítica ao uso indiscriminado da técnica moderna, sugerindo
que possa se relacionar com a técnica sem tornar-se dominado por ela, a partir
da serenidade. Ela visa chegar à base ontológica do fenômeno da vida, ou seja o
sentido da vida, o sentido do viver, e, responder a questão: qual o sentido de
ser?
O
filósofo alemão iniciou sua busca com seu precursor Edmund Husserl, que
defendia a epoché, ou seja, ir às coisas mesmas como uma metodologia. A
partir de então, Heidegger lança mão da hermenêutica, onde ele afirma, na analítica do Dasein feita em Ser e Tempo
(2005), a impossibilidade da prática da epochè,
considerando que desde sempre o homem é ser-no-mundo, e dessa forma, não há como realizar a suspensão de valores e
conceitos preestabelecidos. A hermenêutica é, para Heidegger, a arte de
interpretar a partir da compreensão do fenômeno, compreensão esta que, só é
possível a partir do próprio fenômeno tal qual ele se apresenta.
O
sentido do ser, segundo Heidegger, é o Dasein[1],
que pode ser explicado como ser-aí, o ser aberto as coisas do mundo, as
possibilidades que estão disponibilizadas. O Dasein no seu modo de ser mais
próprio é o ser-em e o ser-com, ou seja, o ser no mundo e o ser com os outros
seres e entes do mundo. Nesta leitura ontológica, cuidado é o próprio Dasein, o estar no mundo é cuidado. Da
mesma forma que estar no mundo não é algo estático, o Dasein também não é, ele está em relação com o mundo que é passível
de mudanças de acordo com as necessidades do
ser.
Para
Heidegger, o ente[2]
é algo simplesmente dado, o qual não reflete sobre o seu estar no mundo, não
questiona o seu sentido dentro do contexto, o ente portanto não se reduz
àqueles que não são dotados de racionalidade, ou seja animais e coisas
materiais (inanimadas), pode ser também àquele homem que está, sem se saber,
sem se compreender. Não no sentido oposto mas complementar, o ser[3]
é aquele que se mostra e oculta, e compreende-se a si mesmo no mundo em que
vive e com as coisas e pessoas a sua volta, na sua vivência. O ser não pode ser
reduzido ao conceito de ente, assim o
homem não pode ser o Dasein sem que
haja uma compreensão mínima do sentido do ser homem. Assim o ente é aquilo que pode ser percebido,
conceituado, generalizado, e por vezes estático, enquanto o ser deve ser
compreendido no seu modo de ser, agir e se transformar.
Desde
sempre, o próprio Dasein é cuidado,
isto, por já ser e estar num mundo em relação com outros entes. Estar no mundo não é apenas o que já
sabe-se do senso comum: no ciclo da vida, pessoas nascem, crescem, reproduzem e
morrem. Não é meramente algo mecânico ou instintual. Estar no mundo envolve o
querer viver, a relação com os entes que envolvem o ser do ente.
O
cuidado pode englobar o sentido do ser (Heidegeer, 2005), pode se dizer que ele
é o viver e o viver em relação com o seu contexto, compreendendo o sentido da
existencia e da relação que se dá no mundo. Entretanto, cuidado é relação, é um
fenômeno que se transforma de acordo com as necessidades do ser, as quais não
se mostram quando o ser está fechado para as possibilidades da vida. Para que o
ser se abra para suas necessidades, é fundamental um ponto de partida,
Heidegger complementa que para compreender o ser como cuidado é preciso estar ciente que é na angústia que o
sujeito pode se mobilizar, é na angústia que ele é capaz de levantara questão
do sentido do seu ser.
A
angústia, segundo Heidegger, é inerente à existência humana, é um existencial.
A partir disso, os questionamentos sobre si se fazem naturais, por exemplo, um
cliente doente pode começar a questionar sua doença e sobre o sentido da vida a
partir do diagnóstico. Isto o torna sujeito da ação. Essa mudança de posição
permite ao sujeito se responsabilizar pelo que pode acontecer a partir de
então: uma relação de cuidado consigo.
Com
a angústia o sujeito é capaz de questionar o sentido de ser e a partir de então
perceber-se diferente do outros seres, ou seja, a angústia permite ao sujeito a
singularização. Ao fazer-se diferente, segundo Heidegger, o ser não se perde nas coisas do mundo, não
fecha as possibilidades, retira o ser do lugar de imobilidade diante do mundo
para um lugar de escolha. Este lugar, contudo mantém o ser na angústia: “Em sua
completude, o fenômeno da angústia
mostra , por tanto, a pre-sença como ser-no-mundo que de fato
existe”.(Heidegger, 2005, p. 255)
O
homem desenvolve várias formas de se relacionar com a doença, a doença angustia
e gera angústia, e isto é cuidado, do ponto de vista ontológico, antes da
doença, qualquer relação existente na vida deste homem, também é cuidado. Estar
doente, é a impossibilidade de corresponder aos apelos do mundo e do próprio
corpo, ou melhor é um limite para as possibilidades do ser no mundo (Sá, 2000).
Do
ponto de vista ontológico não cabe dizer a falta de cuidado, mas sim que o modo
de ser do Dasein é impróprio, visto
que não sendo Dasein, também não é
cuidado. O ser para apropriarse do seu modo de ser mais próprio deve questionar-se,
ser alavancado pela angústia para que o fenômeno de compreensão seja completo,
e paradoxalmente não se compreenda totalmente para que se mantenha aberto a
novas possibilidades. Isto caracteriza o poder ser, que não necessariamente é
que o ser esteja sempre no seu modo mais próprio, mas que se reconheça abertura
de poder ser próprio e impróprio. A
propriedade, do viés ontológico, é: “em seu ser
a pre-sença já sempre precedeu a si
mesma” (Heidegger, 2005, p. 256).
O
cuidado, como Dasein, encontra-se na
ontologia dos fenômenos e está existencialmente precedendo qualquer atitude ou
situação vivida por esse ser, logo, o ‘]cuidado está e é toda situação e
atitude de fato, o que não significa que
a prática é anterior à teoria, mas que ambas são possibilidades ontológicas do Dasein.
O
fenômeno cuidado (sorge) pode ser
dividido em dois modos de existir: ocupação (bersorgen) e preocupação (fusorge).
O primeiro refere-se ao cuidado no mundo (manualidade) e relacionado com o
mundo dos entes simplesmente dados, e o segundo, o ‘cuidado’ com os seres deste
mundo que estão em relação constante com os entes que são o Dasein, abertura de sentido. (Heidegger, 2005)
Sá
(2000) em sua leitura de Heidegger menciona que preocupação desvela-se a dois
modos: o mais comum para aqueles se relacionam com o cuidado ôntico, é a
preocupação como ‘substituição’(einspring)
que é caracterizada pelo domínio de um ser sobre o outro, ou seja, onde uma
pessoa assume as ocupações de outra, transformando sua experiência em algo que não precise mais
de reflexão. No segundo modo, a preocupação é ‘anteposição’, ou seja ao invés
de substituir, orienta ao ser um caminho de reflexão diante de si e de suas
possibilidades como existente. Este último seria o cuidado, segundo Heidegger,
no seu modo mais próprio. Contudo, ambas são possibilidades que podem se
mostrar mescladas no cotidiano do ser.
Assim
o cuidado descrito por Heidegger se distância do sentido ôntico, do senso
comum, que é difundido e reconhecido no dia a dia:
No
contexto da hosítalização, o cuidado está ligado á prática do tratamento das
doenças. Estudos desenvolvidos na área procuram mostrar que o cuidado numa
instituição de saúde pode ir além da mecânica de cuidar de uma doença, por isso
são comuns trabalhos que envolvem a
temática de humanização do trabalho hospitalar ou do tratamento dos doentes. Esse
processo de humanização, mostra uma aproximação com a ontologia do cuidado,
onde busca-se diminuir a relação com o objeto e acentuar a relação com uma
pessoa que está doente que além do saber médico demanda diversos tipos de
relação. Este é o cuidar ôntico, que se mostra para os seres, não é o ‘cuidado’
ontológico.
Nos
Seminários de Zollicon(1989), Heidegger menciona que relação também não se
reduz simplesmente ao relacionamento entre duas pessoas, como percebe-se no
senso comum:
A relação, com algo ou alguém, na qual eu
estou, sou eu. Entretanto, ‘relação’ não deve ser objetivamente entendida no
sentido moderno , matemático de relação. A relação existencial não pode ser
objetivada. Sua essência fundamental é ser aproximado e deixar-se interessar,
um corresponder, uma solicitação, um responder, um responder por baseado no ser
tornando claro em si da relação. ‘Comportamento’ = a maneira pela qual eu estou
em minha relação com o que me interessa, a maneira como se corresponde ao
ente.( Heidegger, 1989, p. 202)
Considerando
o pensamento Heideggeriano, onde o cuidado é e está em qualquer tipo de
relação, poderíamos dizer o cuidado médico-paciente, pois envolve elementos que
estão além da doença e da medicação, envolve a vida e a forma como o paciente
descreve a sua vivência, bem como a forma como será acolhida pelo profissional.
A
enfermaria pediátrica tem suas particularidades, é um misto de dor e fantasia, choros e
gargalhadas, isto porque são crianças que estão internadas. São pequenos seres
no mundo, estão iniciando sua descoberta e o desvelamento de serem o que elas
são, da forma como são, como se mostram e como são percebidas. No caso da crianças encontradas na
enfermaria pediátrica do HUGG, são crianças que estvam doentes, mas isso não englobava todo o ser daquelas
crianças.
Durante o período que está hospitalizada, a criança
passa a estar cercada por pessoas desconhecidas: a equipe hospitalar, que é
constantemente remanejada. Tal situação pode ser mais claramente observada nos
hospitais escola, nos quais o pequeno paciente é visto como objeto de estudo, e
não como criança, independente do tempo que passa internada. No entanto, a equipe e seus componentes ainda
serão as responsáveis por cuidar do infante durante este período
No
hospital a criança, mesmo acometida por uma doença, ainda é criança, e como
tal, apresenta o mundo emocional aflorado, assim ela percebe o mundo, o que
reflete no seu comportamento. É seu modo de estar no mundo. Ela ainda não está
totalmente inserida no mundo da razão e da verbalização, elaborando, então,
suas questões através do lúdico e da sua imaginação(Oaklander, 1980). Brincar é
relação, enquanto brinca, está elaborando suas questões e essa atividade,
diminuída ou aumentada, permite perceber como se estabelecem as relações
durante o período de internação.
No processo
de adoecimento o comportamento da criança pode sofrer mudanças, elas podem ser
um sinalizador da doença e, posteriormente, o resultado destas mudanças podem
representar a forma que a criança encontrou para elaborar esse processo.
Esta elaboração pode ser explicada quando Boff (1999) defende
que quem é saudável pode ficar doente e,
adoecer não corresponde apenas a uma parte do corpo, mas sim a
totalidade existencial do homem. O homem pode desenvolver formas de se
relacionar com a doença, e tornar-se são com determinada doença, o que se
diferencia de um ser doente. As estratégias para entrar em contato com a doença
são desenvolvidas por cada um, são singulares e, são influenciadas pelo
contexto no qual essa pessoa está. A criança cria, no seu modo de ser, pode desenvolver suas estratégias
através do brincar, do lúdico, da sua imaginação.
Sá (2005)
concorda com a idéia de Boff do adoecimento da relação, defendendo que “toda doença
é uma restrição mais ou menos grave do poder dispor livremente do conjunto de
possibilidades da relação em que o homem sempre se encontra” (p. 333). Valle
(2000), complementa que “não existe um
sujeito e uma doença separados, mas um ser que adoece, que se revela em sua vivência singular” ( p. 93).
A criança adoecida necessita de atenção especializada, os
cuidados domésticos não são mais suficientes para o restabelecimento da saúde
desta criança, percebe-se então, a necessidade
de uma internação. Com a hospitalização, o cotidiano da criança é
transferido para o hospital, seu ritmo de vida e suas relações anteriores são
interrompidas, ou até rompidas; este lugar torna-se referência. O hospital
passa a ser incluído na vida, nos roteiros da criança com uma doença crônica e
da mãe, torna-se um ambiente onde novas relações podem se estabelecer,
dependendo da experiência da sua naquele período.
A criança é
capaz de construir seu modo de ser com uma doença grave, se conhecendo,
compreendendo seus limites e possibilidades, tornando-se responsável pelas suas
escolhas, se apropriando no seu tratamento ou abandonando (Valle, 2000).
Na fenomenologia a criança é
compreendida como sujeito, ser-no-mundo, ou seja, um ser dentro de um contexto
histórico, econômico, político que está em relação com o mundo. A criança
doente pertence a uma família, brinca, freqüenta uma escola, está situada numa
rede de relações e ao ser hospitalizada inicia uma nova rede de relações.
Permitir a criança brincar e estimular seu pensamento mágico faz com que
elabore esse processo de adoecimento, no entanto, de acordo com Maichin (2004),
nem tudo que aparece nas atividades lúdicas representam aquilo que ela está
vivenciando no real. Pode ser simplesmente um brincar sem significados.
O brincar é a forma de relação da criança com o mundo,
ou melhor, do mundo infantil para o mundo adulto. A criança pode utilizar da
brincadeira para se comunicar, expressar suas angústias, seus medos e seus
desejos. Da mesma forma, a experiência lúdica livre ou estimulada por um
profissional, pode ser terapêutica, possibilitando à criança a re-significação
da doença, que ela não pode mudar, se reconhecendo na sua condição existencial
e assumindo a responsabilidade nas escolhas efetuadas (Valle, 2004).
A
reação da criança à relação que é estabelecida com o cuidador, é o que muitas
vezes o move a trabalhar com criança. Para esse tipo de trabalho é preciso estar aberto, ou seja disponível,
para os pequenos pacientes. Os cuidadores relatam o prazer proporcionado por um
sorriso, um abraço durante o tratamento, no momento da alta ou a qualquer
instante pelos corredores do hospital. É nesse momento que eles se sentem
reconhecidos como profissionais. Além da melhora clínica da criança, a
receptividade e aceitabilidade de todo aquele processo que pode ter começado de
forma dolorida mostra que, naquele momento, acabou bem. Ou a doença foi curada
ou no caso de uma doença crônica se restabeleceu o equilíbrio clínico e
emocional daquela criança, a criança saudável é o objetivo primeiro a ser
alcançado quando a criança é hospitalizada.
O seguinte
fato levou a autora a refletir sobre como os modo de cuidados se revelavam: “Numa
determinada manhã presenciei um fato me levou a saber sobre a política de
brinquedos da presente enfermaria. Eu observava poucos brinquedos disponíveis a
todos, que não eram higienizados com freqüência. Numa conversa informal a
enfermeira chefe confirmou o que eu observara e descreveu a situação de acordo
com a sua vivência e da sua equipe: a criança em questão tinha uma patologia
ainda não diagnosticada, tinha sintomas como enjôo e diarréia constante. Não
brincar no chão significava proteger a criança de maiores contaminações, não
brincar no leito era para não levar tal perigo para o local onde dormia e
passava a maior parte do dia, visto que os brinquedos não eram lavados nem
antes nem depois das crianças brincarem, outro fator era a possibilidade da
patologia da criança ser contagiosa, o que colocaria em risco as crianças que
fossem brincar em seguida com os mesmos brinquedos.”
Nessa
situação está clara a ‘preocupação’ da auxiliar de enfermagem em proteger a
criança, o que não aconteceu com a ‘preocupação’ do esclarecimento à
acompanhante e à criança. Heidegger diferencia ambos em ‘ocupação’ e
‘preocupação’, a primeira está ligada a ‘manualidade’, ao exercício da
profissão de auxiliar de enfermagem que se ocupa dos cuidados de impedir uma
maior contaminação ou piora da criança.
A ‘preocupação’ está ligada ao todo do ser, a compreensão completa da relação que corresponde a explicar,
se fazer compreender, e perceber se está sendo compreendido, se a profissional
de saúde tivesse explicado seus motivos consequentemente teria dado sentido à
proibição da brincadeira. A ‘preocupação’ é uma atitude de ‘cuidado’ com a
relação, enquanto a ‘ocupação’ é uma atitude de cuidado com a doença.
Na
visão da equipe entrevistada cuidar da criança como um todo consiste em cuidar
a partir das especialidades profissionais presentes na equipe de funcionários
da enfermaria, ou seja, um cuidado fragmentado que pode ser, ou não, unificado
nas reuniões clínicas.
Os
médicos entrevistados entendem seu cuidar como cuidado com o tratamento
clínico, mas não fecham o seu olhar para o ser da criança e para a sua família.
O tratamento medicamentoso faz-se necessário e prioritário, e, paralelo a esse
cuidado, os cuidadores mostram-se atentos ao lado emocional e social da
criança.
Da
mesma forma que a foi descrito que ser médico não é apenas exercer uma
profissão técnica mas, é o modo de ser do médico, Heidegger na sua descrição
distância a compreensão do ser, do conhecimento técnico:
Todo o fenômeno é
compreendido de um modo total, não isolado. O sujeito que compreende toma
sempre consigo o seu mundo, a partir do qual realiza a projeção do sentido e no
qual somente se abre o conteúdo individual em seu sentido – daí uma estrutura
circular da compreensão entre o particular e o todo. A compreensão não é um modo
de conhecimento, é um modo de ser (apud Feijoo, 2000, p. 87).
Os
cuidadores estão cientes do cotidiano da criança além do hospital, ela vai a
escola, tem sua casa, seus amigos, seus brinquedos, bem como daquele que
acompanha a criança, geralmente, a mãe, que tem que faltar o seu emprego e
muitas vezes é demitida, o que não será positivo para essa família. Nesse ponto
há a tentativa de conciliar a estadia da criança às suas condições globais, por
exemplo, algumas mães que não podem ficar 24 horas na enfermaria acompanhando o
filho, mas pode dormir a noite, a enfermagem procura suprir essa falta, em
outros casos a mãe é falecida ou não há possibilidade dela estar com a criança,
pode-se então abrir a exceção para a presença do pai. Cytrinowicz(2000),
concorda que a ausência de um familiar pode leva a criança, que está num lugar
diferente e diante de uma nova situação, a
experimentar extrema angústia, isso porque se percebe também, um ser
voltada para o futuro.
Os
profissionais – os cuidadores – estão constantemente relacionando-se com o
outro dentro das suas limitações, físicas e sociais. A atenção às condições
sociais leva o paciente a ser internado antes do previsto ou apenas para
exames. É comum a internação pela necessidade de execução de exames o que seria
possivelmente realizável em um serviço ambulatorial, no entanto devido aos
entraves do serviço público e a urgência nos exame, a internação se faz
necessário para a realização dos mesmos e pesquisa do diagnóstico.
Outro fator de internação é a questão econômica,
por exemplo, o paciente vai a consulta na sexta-feira e tem que internar na
segunda-feira, se ele não tiver como arcar economicamente com o dinheiro da
passagem a internação é feita no mesmo dia da consulta. É um cuidado com a mãe
também, uma compreensão das suas condições econômicas.
No
HUGG, por haver a obrigatoriedade do
Estado em fornecer o material necessário para a estadia, alimentação e
medicamento do paciente, os profissionais buscam oferecer aos pacientes aquilo
que há de melhor para a sua melhora, no entanto não escapa do olhar da equipe
que, ao sair do hospital a criança retornará para a sua casa com os seus
próprios recursos, que muitas vezes são escassos. Nesse sentido, observa-se a
orientação dos cuidados que a criança necessitará fora do ambiente hospitalar,
visando adequar as necessidades da crianças às possibilidades da sua família.
Dessa
forma, torna-se incoerente querer que a melhora da criança em casa seja
semelhante a que se dá na enfermaria pediátrica, tamanha articulação de pessoal
e material ali existente. A partir da alta hospitalar, ela estará de volta ao
seu ambiente, sua casa. O médico não tem como intervir na sua vida “além do
hospital”. Segundo informações colhidas nas entrevistas, a orientação é a única
alternativa para um tratamento em casa, e
a pesquisa para saber das condições sociais, econômicas e de articulação
prática se dá no decorrer da internação e, com esse material em mãos, a equipe
médica é capaz de adaptar a conduta ideal para uma conduta possível de ser realizada
pela família da criança hospitalizada.
Quando a gente interna um doente, interna uma pessoa que está doente, que no
caso é um menor de idade, então a pediatria tem algumas características muito
peculiares. As vezes é uma criança que não sabe dizer o que sente e que a gente
tem que ter um interação muito grande com essa família e perceber que toda
internação ou pelo menos, a maior parte delas é um momento de fragilidade, a
doença é um momento de fragilidade imagina uma doença que tira essa criança e
essa família do contexto habitual do cotidiano, que é o lar, coisas do dia a
dia dessa família.(fala da médica professora da enfermaria)
A
equipe médica fragmentada com vários
saberes sobre uma única pessoa podem gerar uma noção de ‘cuidado’ segmentado. O
‘cuidado’ é dividido em funções, como cada profissão, existe o discurso de
‘cuidado’ como um todo, ver a criança como um todo mas não há o trabalho do
todo em conjunto, cada um atua dentro do seu saber, interpela pelo saber do
outro, compartilha seus saberes e no entanto o ‘cuidado’ ainda é dividido entre
o ‘cuidado’ terapêutico, o ‘cuidado’ das brincadeiras, o carinho, a atenção,
entre outras formas de relação.
Na pediatria do hospital nos fazemos um
trabalho de equipe ,e a criança só tem a ganhar. (...) se precisar do
acompanhamento dos diversos setores, ela já vai ser encaminhada para os
diversos setores para ter acompanhamento e a família já sai toda
orientada.(fala da assistente social responsável pela enfermaria pediatria)
Para
além da relação médico-paciente, é existe a relação entre médicos professores e
médicos alunos e residentes, que é envolvida pela preocupação na formação do
futuro profissional. Antes de aprender a lidar com a limitação do outro, o
cuidador deve enfrentar os seus próprios limites como ser-no-mundo. Diante da
solicitação de cuidar de um criança, Cytrynowicz afirma, que o adulto “se
depara também, ao mesmo tempo, tanto com a sua própria possibilidade de realizar-se como responsável
pelo crescimento da criança, como com a condição da criança de ainda não está
descoberta para si e para os outros”(p. 75).
Dessa
forma junto com a criança, o adulto está aberto a possibilidade de escolher
entre responder ou não a solicitação de cuidado da criança. Essa demanda da
criança que remete a uma falta, do que ela não é e ainda vai vir a ser, está
sendo compreendida como “fragilidade infantil”, que pode acabar ao chegar na
fase adulta. Entretanto está é uma compreensão errônea do viver da criança e do
viver do adulto, a falta existirá sempre.(Cytrynowicz )
“A
profunda ligação entre o adulto e a criança é o que torna mais difícil
compreender e expressar o que e como se origina num ou o que e como vem do
outro” (Cytrynowicz, 2000). Quando não há uma maior atenção para essa diferença
o cuidador pode se compreender como ditador da vida da criança, o que Sá(2000)
descreve como substituição. A possibilidade do adulto viver na anteposição ou
na substituição se dá pois seu modo de existir permite antecipar as
experiências a ser descobertas pelas criança. Ao antecipar essas experiências,
o cuidador está “representando” a criança em suas escolhas.
Cuidar
ao modo mais próprio do crescimento da criança é o que Heidegger denomina pre-ocupação, que
permite a partir do afastamento daquilo que atrapalha, abrir o caminho para que
a criança caminhe sozinha, para uma vida sadia. Por outro lado essa
responsabilidade no cuidado com a criança pode gerar angústia no cuidador,
visto que põe em jogo as limitações se possibilidades.
Tal
cuidado pode revelar-se a partir da comunicação. Percebeu-se que o diálogo da
linguagem infantil com a linguagem dos cuidadores faz-se compatível no momento
em que ambos, como seres-no-mundo, se
mostram na intenção de se comunicar. Essa facilidade de falar, ouvir, se fazer
entender e perceber-se compreendido exige sensibilidade do profissional.
Heidegger denomina tal fenômeno de disposição. Mesmo não sabendo se está sendo
compreendido pela criança os profissionais mantém com a mesma um diálogo verbal
e, na maioria das vezes se fazem compreender.
Segundo
Carmo(2004), “o sujeito falante carrega consigo uma força pré-pessoal,
involuntária, e só revela seu segredo quando fala” (p. 96), assim para além da
verbalização há uma pessoa que não é só voz, tem uma postura, um tom de voz,
articula gestos, um conjunto de linguagem não verbal que comunica ao outro. O
fato desse outro ser uma criança que não compreende os signos e significados da
linguagem verbal não o impede de entender e sentir as intenções do não verbal.
“A fala não deve ser considerada apenas como
comunicação, mas primordialmente como revelação de um ser singular em sua
autenticidade e/ou inautenticidade. A linguagem permite ao pesquisador, assim
como ao psicoterapeuta, acessar o mundo vivido do sujeito, aprender como se
organiza esse mundo, que é constantemente criado, questionado, ameaçado,
reconstruído (Augras apud Feijoo, 2000, p. 87)”.
Segundo
Feijoo (2000), “a fala pressupõe ouvir. Escutar é abrir-se ao outro, ao sentido
que faz para si a fala do outro, com limites contradições, falhas,
ocultamentos, valorização de certas situações – o que pode ser revelador do seu
modo de existir(p. 87)”.
Dessa forma, o adulto que trabalha com criança
precisa gostar do seu trabalho, e esta é uma condição fundamental para o bom
relacionamento com a criança e com a equipe. A atenção do Estado brasileiro com
o cuidado com a criança hospitalizada mostra-se através de leis e, da
inclinação dos órgãos responsáveis em cumpri-la.
CONCLUSÃO
Cuidado é, antes de qualquer coisa, existir, e é
ao mesmo tempo, a compreensão da sua existência. Concordo com Heidegger ao ver
o cuidado como ontológico, com inerente ao ser do homem, é a própria relação do
homem com ele mesmo e com o mundo que o cerca.
O cuidado ontológico foge à
percepção daquele tem o pensamento cartesiano, dividido, não é percebido nem
compreendido, não é para ser praticado, não tem um para quê. É como a descrição
do ser em Ser e Tempo, não tem como
denominá-lo, o que não diminui o potencial de questionamento do sentido.
Questionar o sentido do ser é também
questionar o sentido do cuidado.
Percebe-se,
que se fosse possível, a reunião de todos os saberes em um espaço comum para a
discussão de cada caso, tornaria o cuidado completo e o trabalho seria mais
rico. Pois é apenas, na união desse quebra cabeças de funções que ‘cuida-se’ do
todo da criança, é no compartilhamento dos saberes que o ser da criança é
compreendido, seja nas reuniões clínicas ou nas discussões individuais. É nesse
conjunto que pode-se se aproximar do decrito por Heidegger como cuidado.
O
hospital como nova rede de relações, é um local de referência para a criança
com doença crônica. Contudo todas as crianças, que passam algum período
internada, estão atravessadas por essa experiência e, mesmo que no futuro, não
se lembrem do que de fato aconteceu, a experiencia permanecerá, pois o
adoecimento passará a fazer parte do horizonte histórico de cada criança. O
pouco tempo de vida como existente no mundo, faz com que, a criança que passa
alguns dias privada das boas condições de saúde e do seu contexto, tenha uma grande proporção na vida do pequeno
paciente. A intensidade e a qualidade das relações estabelecidas também são
fatores que influenciam na sua formação como pessoa.
O
diálogo da linguagem infantil com a linguagem dos seus cuidadores faz-se
compatível no momento que ambos, como seres-no-mundo, mostram-se na intenção de
se comunicar. Essa facilidade na comunicação está diretamente legada à
disposição de ambos. O adulto que trabalha com criança precisa gostar, e esta é
uma condição fundamental para o bom relacionamento com a criança e com a
equipe.
O
modo-de-ser criança permite, através do brincar e do lúdico a possibilidade de
elaboração do processo de adoecimento e cura.
A
angústia gerada pelo encontro da criança com novas pessoas, novos lugares e,
experiências até então desconhecidas, é a alavanca para novas significações. A
angústia leva a criança a estabelecer novas formas de relacionar-se consigo,
com seu corpo e com os outros(seres e entes) que estão na sua relação com o mundo.
A angústia leva a criança a cuidar de si, estabelecendo novas relações.
A
falta de brinquedos, apropriados para o espaço hospitalar, torna a
instrumentação do brincar precária, o que não impede que o material usado nos
procedimentos médicos diários sejam transformados em um material lúdico.
Brincar com aquilo que, geralmente, fere e invade a criança, auxilia a mesma na
elaboração das suas angústias.
Assim
acredito que a importância desse trabalho consiste na clareza e na
sensibilidade que o assunto foi abordado, contribuindo então para ampliar a
compreensão das relações de cuidado na enfermaria pediátrica e para ampliar o sentido que cuidado e cuidar tem
para os cuidadores.
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.
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[1]
Dasein (pre-sença): Pre-sença não é sinônimo de existência e nem de homem. A
palavra Dasein é comumente traduzida por existência. Em Ser e Tempo, traduz-se,
em geral, para as linguas neolatinas pela expressão “ser-aí”, être-là,
esser-ici etc. Optamos pela tradução da pre-sença pelos seguintes motivos: 1) para
que não fique aprisionado às implicações do binômio metafísico
essência-existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática
que o “ser-aí” poderia sugerir. O “pre” remete ao movimento de aproximação,
constitutivo da dinâmica dos ser, através das localizações; 3)para evitar um
desvio de interpretação que o “ex” de existência suscitaria caso permaneça no
sentido metafísico de exteriorização, atualização, realização, objetivação e
operacionalização de uma essência. O “ex” firma uma exterioridade, mais
interior e estetrário; 4) pre-sença não é sinônimo nem de homem, nem de ser
humano, nem de humanidade, embora conserve uma relação estrutural. Evoca o
processo de constituição ontológica do homem, ser humano e humanidade. É na
pre-sença que o homem constrói seu modo de ser, a sua existência, a sua
história ect(cf. entrevista de Heidegger ao Der
Spiegel, Ver. Tempo Brasileiro, n.50, jullho-set. 1997) (Nota do tradutor,
Ser e Tempo, 2005 p. 309)
[2]
Ente é tudo aquilo que falamos, tudo que entendemos, com que nos comportamos
dessa ou daquela maneira, ente é também o que e como nós mesmos somos.
(Heidegger, 2005, p. 32) Ente é tudo aquilo que pode ser restringido a um
significado, a um conceito, pode ser
nomeado, caracterizado, definido.
[3]
...o ser não pode ser concebido como ente,(...) o ser não pode ser determinado,
acrescentando-se um ente. Não se
pode derivar o ser no sentido de uma
definição a partir dos conceitos superiores e nem explicá-los através de
conceitos inferiores. (...) O ser é o conceito evidente por si mesmo.
(Heidegger, 2005, p. 29)
Acesse: http://www.fgr.org.br/2008/index.php?pg=biblioteca&&sub=acervo_artigos&autor=69&lang=
